
Acordei azeda, com um puta mau hálito do purgatório de Dante. Levei doze segundos pra entender onde eu estava. Estava deitada numa cama de colchão de espuma barato. Olhei pro cara que dormia ao lado e eu não lembrei quem era. Olhei pra frente e vi o banheiro. Quando saí da cama, fiz um malabarismo para não tropeçar numa mina que estava deitada no chão, nua. Orgia de novo? Que puta merda!
Me olhei no espelho do armarinho enferrujado. Eu não reconhecia aquela figura. Estava parecendo uma puta barata da Augusta. Minhas olheiras estavam salientes, meus lábios inchados, sobrancelhas sem desenho, cabelo sem corte, estava pálida. Estava nojenta e pra piorar tudo, eu tinha cheirado.
Sentei no vaso cor de rosa e dei um mijão gostoso. Quando fui me limpar senti aquele cheiro de azedo de camisinha barata misturada com porra. Mesmo cheirada eu usei caminha, menos mal! Precisava de um banho e urgente. Fucei num armário caquético no canto do banheiro buscando por uma toalha limpa e encontrei uma toalha colorida, meio dura da lavagem com sabão mal dissolvido e seca no varal. Servia, no final das contas. O cheiro era de roupa limpa, ao menos.
Abri o box. Um xampu desses vendidos em litro cantou “Welcome My Son”. Puta cheiro enjoado de babosa. Nem sinal de condicionador. O sabonete tinha vida própria na saboneteira; cantava feliz cheio de pentelhos enormes! Puta que o pariu!
Voltei a mexer no armário a procura de um sabonete novo. Quando fui fechar uma das gavetas, a prateleira do armário caiu e fez um baita estardalhaço do inferno. O cara acordou e veio ver o que se passava.
- Preciso de um banho. Estava pegando um sabonete…
Ele grunhiu ainda dormindo, virou de costas e mijou fazendo um barulhão. O cheiro de mijo de homem de quinta invadiu o banheiro e eu corri pro chuveiro. Porra, como eu fui parar ali?
Abri a embalagem do sabonete e era um desses Palmolives da vida. Seguindo o estilo do fulano, eu esperava um sabão em barra desses de lavar roupa pra tomar banho.
Dois minutos depois que entrei no box, o cara resolve me acompanhar no banho.
- Será que você pode esperar eu terminar? – e já fui empurrando o cara pra fora do box.
Cacete, eu não divido chuveiros com fulanos esquisitos.
Fechei os olhos e deixei a água envolver meu corpo, levar todo o sebo que me incomodava e fiz um pequeno esforço pra lembrar como eu chegara até ali. Em vão. Não lembrava nem como tinha começado a noite.
Saí do chuveiro e ele estava deitado na cama com os braços em volta da cabeça. A mina ainda estava deitada no chão. A luz que vinha da televisão mostrou que tinha mais um cara no quarto e outra mina.
- E aí gata, pronta pra mais uma?
Eu o teria matado se estivesse armada. Depois esquartejaria seu corpo, colocaria tudo dentro de uma mala e atearia fogo. Em definitivo, preciso melhorar meus parceiros.
- Não gato estou meio ardida, não quero ficar assada.
Ele sorriu como se tivesse conquistado o Everest. Eu segurei pra não jogar o vaso de flores de plástico empoeiradas na cara dele. Que sujeito!
Ascendi a luz e comecei a busca pelas roupas que eu estivesse usando. Encontrei um dos meus vestidos e um pé de uma das minhas sandálias novas. Quanto desperdício com esses furados. Pensei em procurar minha calcinha e sutiã, mas àquela altura eu só queria sumir dali o quanto antes.
- O que foi gata, já vai embora? A festa foi curta demais, podemos prorrogar até o dia amanhecer.
- Me diz, quem é você e que porra de lugar é esse?
-
Ele sorriu e em seguida riu uma gargalhada vadia.
- Assim você me ofende, gata! Não se lembra da festa do Perón, dos amassos na sala dele, na escada de incêndio?
- Não. – tentei ser fria e sem expressão.
- Como não lembra? Não cheiramos tanto assim!
- Eu não cheiro, não viaja.
- Não cheira pouco, você quer dizer?
Quem esse porra de sujeitinho vadio de dentes tortos pensa que é?
- Que merdinha você pensa que é? Não estou interessada em repetir nada do que eu tenha feito, seja lá que merda eu tenha feito.
Tropecei na mina que estava na beira da cama dele e explodi. Dei um pontapé bem no meio do estômago dela, peguei a porra do vaso de merda e joguei na parede em cima dele, a merda do lugar era tão infame que não tinha mais nada onde eu pudesse descarregar minha ira.
A essa altura o cara deitado no chão estava olhando perplexo e perdido e confuso e chapado como eu estava nos quarenta e sete minutos anteriores. Só vendo pra crer; o cara estava com pupilas do tamanho de azeitonas verdes. Não o reconheci. A mina ao lado dele respirava profundamente e a outra, deitada no pé da cama, sequer se mexeu.
Saí batendo perna e com o vestido e sandálias nas mãos. Não esperei o elevador, desci as escadas e depois de uns quatro andares, coloquei o vestido. Quando cheguei na portaria o porteiro me olhou maliciosamente como se me conhecesse há anos… Dei uma ordem com o olhar para que ele abrisse o portão e ele a obedeceu amargando o sorriso.
Não tinha idéia da porra de lugar que eu estava. Pelos prédios e pelas casas, era um bairrinho desses de classe C, mas não tão fuleiro a ponto de não passar táxi. Caminhei por quatro quarteirões até chegar numa avenida. Parei num posto de gasolina e perguntei por ponto de táxi.
- Olha dona, ponto de táxi, aqui, só uns dez quarteirões pra cima.
Era só o que me faltava.
- Vem cá, onde eu estou?
- Dona, aqui é Tatuapé.
Ótimo. Agora dava pra eu chamar um táxi contratado. Eu teria de esperar uns trinta minutos até a unidade chegar e… Porra, não dava, cadê minha bolsa?